Cinema

Resenha: Os Oito Odiados

Seria possível em menos de 25 anos um profissional de cinema ser considerado um dos maiores da história? Hithcock, por exemplo, teve aproximadamente 50 anos de carreira e Kubrick 40. Quentin Tarantino, o maior diretor do cinema moderno, nos mostra mais uma vez que com 23 anos de carreira, ele pode ser considerado um dos maiores diretores que a sétima arte já teve. E pasmem: este é o oitavo filme totalmente roteirizado e dirigido por ele. O que dizer de um diretor que tem como filme de estreia “Cães de Aluguel”?

Análise aprofundada Os Oito Odiados Filme
Imagem/Reprodução: BGR

E que, não obstante, após 2 anos nos apresentou “Pulp Fiction”? Ora, com toda a sua personalidade com a câmera na mão e genialidade na hora de escrever o roteiro, Tarantino conquistou muitos adeptos do seu trabalho por todo o mundo. O mais inusitado sobre este ícone é que ele nunca cursou uma faculdade de cinema; trata-se “apenas” de um cinéfilo apaixonado. Talvez este seja o motivo de sua obra ser tão completa, Tarantino entende o real significado de cinema e o traz para seus longas, através da miscigenação de elementos de diferentes gêneros cinematográficos. E eis aqui o diretor mais uma vez brincando com os diferentes tipos de filme. Quem disse que o faroeste precisa seguir uma linha e que não pode ser misturado com uma história de detetive ou um drama psicológico pós-guerra? O diretor quebra esses “dogmas” que o cinema muitas vezes impõe de que existem gêneros invioláveis e mostra de uma forma brilhante como cada estilo de filme pode complementar outro, se mediado por uma boa história.

O roteiro é inteiramente escrito por Quentin. É com certeza o ponto forte do filme (assim como é em todos outros filmes dele). Os diálogos são cativantes e servem, não só para preencher tempo de tela, mas para desenvolver a personalidade dos personagens. E é esse o grande brilhantismo do roteiro. Todos os 8 personagens do longa são memoráveis e possuem características muito bem apresentadas que reforçam essa ideia. E, conseguir dar profundidade para 8 personagens em apenas um filme, é deveras difícil. Clássicos como “Os Sete Samurais” de Kurosawa ou “Sete Homens e um Destino” de John Sturges (filmes que influenciaram e muito a realização de “The Hateful Eight”), apesar de serem excelentes obras de arte e funcionarem de acordo com suas propostas, não desenvolvem muito bem seus personagens. Os filmes se concentram num núcleo de 3 ou 4 protagonistas que ditam o rumo da história. O fato de todos os personagens estarem confinados numa estalagem durante praticamente toda a ação engrandece a capacidade do roteiro de prender a atenção do espectador, visto que em tal reduzido espaço não existe muita capacidade de locomoção. Dessa forma, Tarantino usa e abusa da criatividade, criando acontecimentos bizarros que são práxis de sua obra e invertendo muitas vezes a linearidade da história, através de flash-backs. Tal recurso reforça a minuciosidade do roteiro, pois diversas pistas são apresentadas durante o filme: pequenos detalhes que funcionam como peças de um quebra-cabeça a ser completado. Outro grande aspecto que o roteiro aborda é a situação dos negros e das mulheres no Velho Oeste. De uma forma não convencional, funcionando mais de forma satírica, Tarantino critica o fato dos negros serem subjugados, sendo o vértice dessa metáfora o personagem de Samuel L, Jackson. É visível que o personagem só é respeitado até certo ponto por apresentar uma carta de Abraham Lincoln, mas mesmo assim é constantemente chamado de “niger”. O brilhantismo do roteiro não está no fato de reprimir esse tratamento de forma imediata, mas mostrar isso de forma exagerada como uma espécie de ironia, que faz o espectador sentir todo esse panorama de forma muito mais nítida.

Os Oito Odiados Resenha
Imagem/Reprodução: IMDb

A direção é muito eficaz e inteligente. Sem mostrar nenhum personagem e em apenas 5 minutos, o diretor já mostrou a que veio. O fato do filme começar com os créditos já relembra a era do faroeste, onde isso era comum. Mas, na primeira cena isso já é desmistificado, visto que somos apresentados a diversas paisagens cobertas de neve. Os faroeste clássicos sempre tinham como símbolo o calor e o deserto, que ajudavam a construir uma ideia de sujeira e mau cheiro aos pistoleiros. Com essa entrada saudosista, mas com a neve predominando, a direção cria um paradoxo que reforça a ideia de que trata-se de um faroeste não-convencional. Ora, tudo de Taratino não é convencional. A cena seguinte mostra uma estátua de Jesus Cristo coberta por neve. Isso provoca um apelo visual muito grande, pois mostra que trata-se de uma história sem a “proteção de Deus”. Tal cena inspira uma rima visual no final do filme, que demonstra o cuidado da direção de Quentin. Dentro do estabelecimento, a câmera também é muito bem conduzida. É feita de tal forma que ocorre uma espécie de claustrofobia, visto que a tensão cresce gradativamente, enquanto o espaço diminui inversamente proporcional. A câmera raramente foge da altura dos rostos dos atores e isso apresenta bons aspectos. Além de extrair ao máximo das atuações, o diretor se mostra no mesmo patamar que os personagens, naquele cantinho “esquecido por Deus”. A câmera só vai tomar lugar acima do cenário ao final do filme, onde uma espécie de justiça foi feita, remetendo a uma espécie de Justiça Divina. A trilha sonora é sempre um ponto forte da obra “tarantinesca”. Dessa vez, o responsável é Ennio Morricone, o mesmo compositor da famosa trilha da Trilogia do Dólar e que já havia trabalhado com Tarantino em outros projetos. Aos 87 anos, é notável a versatilidade para criar novos temas. A trilha em si não é marcante como já foi, porém é essencial para os momentos de tensão do longa. As músicas presentes no filme também são excelentes e servem para contar a história. Basta prestar atenção nas letras que certas analogias podem ser feitas.

Outro ponto forte é o “casting” do filme. Todas as figurinhas carimbadas de Tarantino estão aqui. Samuel L. Jackson, sempre carismático, segura bem o filme, sendo bem apoiado por Kurt Russel, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern, dentre muitos outros. Mas o destaque na atuação está em Jennifer Jason Leigh, que nos presenteia com uma atuação visceral, cheia de regionalismos e caricaturas que ajudam a remeter ao tempo passado. O melhor de tudo sobre a direção de Tarantino é a forma como ele homenageia o cinema em si. Desde os faroeste clássicos de John Wayne, até os “spaghetti” de Sergio Leone, através de sutilezas no roteiro e direção, Tarantino reverencia essas obras, ao mesmo tempo, que dá uma nova cara ao cinema. Talvez este seja o grande diferencial do diretor: a busca por sair do comodismo de uma história linear e a experimentação com diferentes gêneros e estruturas de roteiro. “Os Oito Odiados” é definitivamente um filme de Tarantino, dotado de roteiro pensado nos detalhes, direção inteligente e escolha de atores excepcional, que reforçam a ideia de que Quentin Tarantino é o maior idealizador da Era Moderna da sétima arte.

Nossa Opinião
  • Enredo - 10/10
    10/10
  • Elenco - 10/10
    10/10
  • Direção - 10/10
    10/10
  • Entretenimento - 10/10
    10/10
  • Visual - 9/10
    9/10
9.7/10

Imagem: BGR

  • Muito bom!

  • Marina Oliveira Castro

    Incrível o filme! Tarantino sempre se supera. João já virou meu crítico preferido rsrsrs. Só não concordei muito com a parte da trilha sonora. Achei um pouco genérica. Mas fora isso o filme é 10!! Parabéns, equipe TFX.

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Apaixonado por Star Wars e Senhor dos Anéis e profundo apreciador da sétima arte.

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