Cinema

Crítica: O Regresso

Depois do diretor mexicano Alejandro G. Iñárritu faturar o Oscar de melhor filme e diretor por “Birdman”, criou-se uma enorme expectativa sobre sua próxima obra. Ainda mais quando anunciou-se a protagonização de Leonardo DiCaprio. A união do premiadíssimo com o renegado. Porém, “O Regresso” foi um filme difícil de ser realizado devido a diversos fatores. O clima hostil da região em que foi filmado, o excesso de perfeccionismo do diretor ao exigir o uso de luz natural durante todo o filme, a demora com a realização dos efeitos especiais, dentre outros. Além disso, ironicamente, os atores tiveram que fazer sacrifícios em prol do longa. DiCaprio (vegetariano assumido) teve que comer fígado cru para ajudar na veracidade da cena. Além disso, Tom Hardy recusou um papel de importância em “Esquadrão Suicida” para concluir as filmagens. Mas, será que todo esse esforço valeu a pena? O filme conta a história de Hugh Glass (DiCaprio), um explorador que é deixado para trás após ser atacado por um grande urso. Acompanha-se então a sua saga por sobrevivência e por vingança àqueles que arruinaram sua vida.

O roteiro, primeiramente, é muito ousado. Inicialmente, tem-se a impressão de que falta camadas nos personagens, que o desenvolvimento é muito superficial. Mas, com o decorrer do filme, a verdadeira mensagem que ele propõe revela que tal desenvolvimento não é importante. O foco do roteiro não é o excesso de sentimentalismo; mas sim retratar a essência da natureza humana. Em vez de se preocupar com dar profundidade aos sentimentos do protagonista, o filme provê uma identidade suja, sofrível através de um desenvolvimento mais físico do que emocional. Todo esse desenvolvimento só é possível, é claro, devido a grande atuação de Leo. Trata-se de um trabalho admirável, tanto pelo esforço físico nítido, quanto pelo trabalho de expressões corporais que é extremamente verossímil. Não é o melhor trabalho de sua carreira, mas DiCaprio mantém um bom nível de atuação e segue como forte candidato ao seu sonhado Oscar.

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Imagem/Reprodução: Source

O interessante do roteiro também é a miscigenação de gêneros. O filme não se preocupa em tratar-se apenas de um relato de um sobrevivente, mas faz diversas experimentações inventivas quanto à linguagem cinematográfica. Existem muitos elementos do gênero épico (muitas coisas até de Homero), suspense, faroeste e até mesmo drama familiar. Mas, o fator que torna o longa diferente de qualquer outro filme de sobrevivência, é a preocupação com o desenvolvimento do ser humano perante ao meio ambiente. Através de metáforas visuais, o roteiro de Iñárritu com Mark L. Smith consegue idealizar uma visão do que seria essa identidade humana tão falada, apresentando uma face mais selvagem do protagonista. O filme também é bastante impactante em relação a críticas implícitas ao modelo americano de civilização, visto que existe um diálogo fantástico que mostra que na verdade, a terra é dos índios. Por isso, trata-se de uma obra tão corajosa. O mexicano consegue desenvolver uma história extremamente humana, ao mesmo tempo que critica um sistema totalmente anti-humano. A genialidade de um roteirista está na capacidade de juntar elementos contrários em prol da narrativa. E isso, Iñárritu executa com maestria.

A direção, que também é de Iñárritu, é um dos pontos fortes. Os consagrados planos sequência de “Birdman” estão de volta, mas agora são mais limitados. Mesmo assim, quando esse recurso é utilizado, as cenas são espetaculares. A movimentação de câmera é impressionante e o diretor consegue abranger todo o ambiente da cena ao mesmo tempo que extrai o melhor das atuações de seu elenco. Aliás, a ambientação é excelente. É visível como o longa foi realmente filmado lá e como o diretor consegue imergir todo o público naquele universo glacial. Através de uma direção consolidada, Iñárritu dá ao filme um clima frio, invernal que segue a narrativa o tempo inteiro. É visível o modo como a ambientação e o cenário servem para o tom que o filme apresenta. Além disso, a trilha sonora nervosa e a mixagem de som precisa são essenciais para, mais uma vez, engrandecer todo o trabalho técnico. A fotografia do longa é exuberante e lembra muito “Os Oito Odiados”. Mas, aqui, o diretor faz uso diversas vezes de planos abertos que dão ênfase ao meio ambiente sobre o homem. Além de apresentarem um sub-texto bastante significativo, essas cenas dão uma beleza natural imprescindível ao longa, e são dignas de papel de parede.

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Imagem/Reprodução: The Film Stage

Os efeitos visuais são impressionantes. Vale ressaltar que o urso foi inteiramente feito por computação gráfica. Além de ser muito bem renderizado, a organização espacial da cena é perfeita. A direção consegue criar um clima extremamente apreensivo e importante para o desenvolvimento do enredo. O elenco de apoio também está muito bem. Domhnall Gleeson participa bem de suas cenas, mostrando versatilidade e imposição. Tom Hardy impressiona com a melhor interpretação de sua carreira. Mesmo com seu visível problema de dicção, o personagem dado a ele se encaixa perfeitamente com os seus trejeitos. Trata-se do “vilão” do filme, mas o personagem pode ser analisado como um vértice relacionado à obsessão humana. Aliás, seguindo por esse lado, cada personagem pode representar alguma característica inerente ao homem. E é essa profundidade que torna o filme tão especial.  Não deve ser visto só com os olhos, mas com a mente. Mesmo não querendo ser sentimental, o filme emociona. Mesmo DiCaprio não tendo muitas falas, apresenta uma atuação essencial. E, com toda a suposta falta de ambição que o filme inspira, ele se prova o contrário: uma obra grandiloquente que se caracteriza por um profundo estudo da identidade humana através de uma história extremamente bem dirigida e com o elenco ideal para tal estudo antropológico.

Nossa opinião
  • Roteiro - 9/10
    9/10
  • Elenco - 10/10
    10/10
  • Direção - 10/10
    10/10
  • Visual - 9.5/10
    9.5/10
  • Trilha Sonora - 9/10
    9/10
9.5/10
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Apaixonado por Star Wars e Senhor dos Anéis e profundo apreciador da sétima arte.

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