Cinema

Crítica: A Bruxa

Filmes de terror são extremamente controversos. É muito difícil analisar uma película do gênero como mediana: é 8 ou 80, muito bom ou ridiculamente deplorável. Infelizmente, o cinema americano ultimamente tem apostado em continuações de franquias do gênero, sem experimentações com a linguagem e até mesmo sem desenvolvimento de narrativa coeso. E é por isso que o gênero passou a ser um pouco subjugado pela crítica e pelo público em geral, passando a ser identificado como filme de tipo B. Mas, como todo gênero pode ter sua volta por cima, o terror contemporâneo apresenta vértices que ainda dão esperança para um futuro melhor. Um grande exemplo é o filme “Invocação do Mal” que consegue construir a tensão de forma excelente e prende a atenção do espectador. E, em 2016, “A Bruxa” chega aos cinemas brasileiros com propostas simples, mas originais e extremamente bem encaixadas na história.

Do original “The Witch – A New-England Folktale”, o filme acompanha uma família protestante na Nova Inglaterra de 1630 que é expulsa da colônia e se muda para uma fazenda isolada. Lá, eventos sobrenaturais de bruxaria e possessão tomam parte e poem em cheque o bem estar da família. O roteiro é uma das melhores partes do filme. Robert Eggers consegue produzir um texto extremamente cativante e bem construído. A relação entre os personagens é forte e as características individuais de cada um são transmitidas com clareza. Além disso, o roteirista aproveita muito do viés religioso, que era de suma importância na época, para atribuir aos acontecimentos passagens da Bíblia, como Adão e Eva e retratar o medo da população perante a ira de Deus. Outro fator muito bem utilizado foi o histórico, visto que na época, quem não era católico era considerado feiticeiro (herege). E o paralelo realizado é genial, pois uma família protestante sofre eventos de bruxaria. E o melhor de tudo: a história é baseada em contos feitos na época. Portanto, trata-se de um excelente retrato de época, pois demonstra a mentalidade extremamente religiosa da população. Mas, a qualidade vai além disso. A tensão cresce gradativamente de acordo com o andamento do longa e as cenas são realmente imprevisíveis. Personagens que pareciam, em um primeiro olhar, planos mostram-se esféricos e o longa toma caminhos alternativos que engrandecem a história. Um filme de terror que trate de bruxaria não é algo incomum, mas “A Bruxa” tem sua originalidade na forma de conduzir a história.

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Imagem/Reprodução: Time Dotcom

Porém, toda a tensão não existiria sem um bom trabalho técnico. O diretor Robert Eggers faz um trabalho extremamente digno, com uma câmera nervosa e que se movimenta lentamente, de forma paradoxal ao roteiro do longa. Trata-se de uma técnica muito bem utilizada, pois eleva a apreensão do espectador. Além disso, a trilha sonora merece destaque pelos temas ecléticos. É impressionante a quantidade de melodias diferentes existentes na metragem e como cada uma se relaciona bem com o momento do filme. O diretor consegue aliar seu trabalho manual com o trabalho sonoro (mixagem e edição de som) para maximizar a experiência cinematográfica. Sim, terror também é arte. Outro fator decisivo para a qualidade da obra é o design de produção e a paleta de cores. É visível como tudo no início é claro e bem ambientado, e como no decorrer da trama as cores vão perdendo vida e a escuridão vai prevalecendo. A iluminação usada reforça essa ideia, assim como os planos utilizados pelo diretor. Nota-se um simbolismo extremamente forte ao focar em um coelho ou em uma maçã, por exemplo.

Aliás, o simbolismo do filme também é um ponto forte, pois deixa coisas implícitas no roteiro. A história não é contada de forma “mastigadinha”, existe um zelo em respeitar o público e acrescentar nas entrelinhas elementos que engradecem o longa. O uso de “jump-scares” é um dos maiores clichês do cinema de terror atual. Tratam-se daqueles famosos sustos que vêm do nada e são irrelevantes para a história. “A Bruxa” se destaca por não apresentar nenhum desses, reforçando a qualidade da produção. O medo que o espectador sente é construído desde a primeira cena, de acordo com os elementos cinematográficos usados nos momentos certos. E, esse configura-se o maior mérito do filme: ser assustador, mesmo sem dar sustos. Pode-se dizer que trata-se de um terror psicológico de primeira linha. Um ponto inusitado do longa é o elenco. Durante a sessão, o trabalho dos atores não é muito notado. E, aqui, isso faz sentido. Todos os atores apresentam um elevado nível de atuação, mas não existem disparidades entre eles. Parece que todos realmente encarnaram aquele universo e deram uma atuação muito equiparada. Evidentemente existem algumas cenas que reforçam a qualidade individual de cada um, mas o todo é o que prevalece. “A Bruxa” é um excelente retrato histórico que subverte o gênero de terror, apresentando experimentações com a linguagem cinematográfica que tornam o longa extremamente original (e assustador).

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Imagem/Reprodução: Dmcdn

Nossa Opinião
  • Roteiro - 9.2/10
    9.2/10
  • Elenco - 8.9/10
    8.9/10
  • Direção - 9.3/10
    9.3/10
  • Visual - 9.0/10
    9.0/10
  • Trilha Sonora - 9.8/10
    9.8/10
9.2/10

Imagem: IMDb

Cinema

Apaixonado por Star Wars e Senhor dos Anéis e profundo apreciador da sétima arte.

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