Cinema

Crítica: Mogli – O Menino Lobo

Walt Disney. É impressionante como o nome de uma pessoa é imediatamente ligado a uma marca e até mesmo a um estilo de filme. Ora, todos conhecem a fórmula dos filmes da Disney. Mas, do que muitos esquecem, é o criador por trás disso tudo. Walt Disney foi um idealizador, a frente de seu tempo, que criou todo um universo de sonho necessário às pessoas de sua época, que viviam em momentos de tensão armada e crises financeiras.

Mas, como todo bom retrato cultural de uma sociedade, os filmes originais do estúdio, mesmo que clássicos, não são atuais. Isso não é um desmerecimento das obras; as animações clássicas serão sempre imortais. A chamada Era de Ouro da Disney é composta por “Branca de Neve e Os Sete Anões”, “Cinderela”, “Bambi”, “Dumbo”, “A Espada Era a Lei”, “Pinóquio”, “101 Dálmatas”, “Peter Pan”, “Mogli”, dentre outros. O estúdio, porém, ciente da renovação que precisava ter tomou uma decisão arriscada: tentar adaptar esses clássicos animados ao cinema live-action. Os primeiros filmes dessa leva a serem lançado foram “Malévola” e “Cinderela”, que conquistaram o coração do público e a aprovação da crítica. Eis que chega a vez de Mogli (o Tarzan que teve seu filme da Disney antes que o próprio Tarzan).

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Imagem/Reprodução: Omelete

No quesito roteiro, o longa segue grande parte do material original. Mogli é um menino que, depois de abandonada na selva, é criado pelos lobos. Certo dia, porém, um tigre chamado Shere Khan ameaça matar a família de lobos se esta não entregar o garoto. Mogli segue, então, em uma jornada com a pantera Bangheera em direção à aldeia dos homens. Os animais clássicos estão de volta: Baloo, Bagheera, Kaa e todos os outros. Todavia, mais do que isso, esses personagens apresentam uma profundidade que não existia no filme de 1967. Enquanto a animação era superficial ao se tratar dos coadjuvantes, o filme atual preza por desenvolver as características principais de seus personagens. Isso promove um grande apego a seus sofrimentos, assim como suas motivações são críveis.

Remontando o clássico, o filme até mesmo possui uma excelente reinterpretação da música “Necessário, somente o necessário…”. Outro ponto bastante positivo do roteiro é a apresentação de Mogli, sua história, assim como o seu arco sendo construído do início ao fim. Aqui se vê uma preocupação com uma espécie de verossimilhança, ao mesmo tempo que não se esquece de se tratar de um universo fantástico. Note como os homens, mesmo sem aparecerem, são os vilões do filme, já que são os responsáveis pela destruição da natureza. “Ele não pode voltar a aldeia, pois assim virará um homem”, disse Baloo. Trata-se de uma crítica severa ao desmatamento desenfreado, ao descaso com a natureza, assim como à grande necessidade de poder que o homem possui. O vértice dessa busca por autoridade é metaforizado pelo fogo, a chamada “flor vermelha”. O roteiro também acerta ao demonstrar apreço com a natureza, não só em relação a preservação, mas também quanto as relações biológicas entre os animais. É extremamente interessante observar como o comportamento de cada animal é retratado e como isso contribui para os personagens em si.

A direção é de Jon Favreau (Homem de Ferro 1 e 2), que provê um trabalho extremamente digno. A câmera é muito bem manipulada, assim como todos os recursos que o diretor dispõe. O diretor consegue usar de efeitos como o “vertigo” para maximizar a experiência do espectador. Os momentos de tensão são muito bem construídos, assim como as cenas de ação são extremamente bem filmadas e coreografadas. Além disso, como Favreau usa, em boa parte do tempo, a câmera junto aos personagens, seja sob uma mesma altura, seja em primeira pessoa, ele cria um universo extremamente único. A câmera introduz o espectador naquele ambiente totalmente imersivo e importante. Outro fator que merece destaque em sua direção é a condução praticamente impecável da metragem.

Toda cena tem um sentido de existir, assim como todos os personagens são importantes. E, tem mais, Favreau consegue fazer com que animais computadorizados falantes não pareçam ridículos ao conversarem entre si. O diretor consegue imprimir um tom sombrio que funciona perfeitamente. Trata-se de uma releitura do clássico que acrescenta à história, em vez de bajular o material original ao repetir os mesmos pontos. A fotografia do longa é belíssima; existem cenas de tirar o fôlego. Todo esse ambiente imersivo só é possível pelo belo trabalho de Favreau com sua equipe no quesito fotografia, visto que a diferença de cenário dentro da própria floresta é notável. Isso reforça a grandeza da floresta representada, assim como serve para conferir profundidade à narrativa.

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Imagem/Reprodução: Indian Express

Mogli é interpretado pelo garoto Neel Sethi. O menino teve um trabalho muito difícil: além de ser seu primeiro longa metragem, Sethi não contracena com ninguém do filme. Todos os animais presentes na história são feitos por computador. E esse é, infelizmente, o fator que impede o filme de ser perfeito. O ator mirim sente muito essa diferença e apresenta uma atuação limitada. Existem cenas extremamente forçadas e diálogos que soam estranhos ao ambiente pré-estabelecido pelo filme. Mesmo que o garoto seja fisicamente impressionante, tanto na desenvoltura física quanto na semelhança com o personagem, Neel Sethi não apresentou o peso emocional que engrandecesse o personagem.

Apesar disso, a boa escrita de Justin Mark e o bom jogo de câmera de Favreau, deixam com que a jornada do herói não se prejudique com esse fator. Em contrapartida, o trabalho de dublagem do longa merece ser copiado várias e várias vezes. Mesmo contando com atores famosos, eles não demonstram preguiça, conseguindo prover diferencialidades no tom de voz a fim de que se pareçam mais com os personagens do filme. Dentre as principais vozes podem se citar Bill Murray, Idris Elba, Ben Kingsley, Scarlett Johansson, Lupita Nyong’o e Cristopher Walken. Todos apresentam excelentes momentos no filme, sendo até difícil reconhecê-los durante o longa. O grande trabalho de dublagem é aliado com o excelente trabalho visual do longa.

Os efeitos especiais são perfeitos: por serem bem renderizados, além de realistas. Não existe sequer um efeito duvidoso, tudo inspira uma veracidade incrível. Se “As Aventuras de Pi” foi reverenciado pelo tigre e “O Regresso” pelo urso, que tal os dois e outros animais em um mesmo filme? É um trabalho que demonstra o poder tecnológico de Hollywood e justifica a refilmagem. “Mogli – O Menino Lobo” é um excelente reboot, por contar com um trabalho de dublagem impecável, visual impressionante e diretor inspirado.

Nossa Opinião
  • Enredo - 8.1/10
    8.1/10
  • Elenco/Dublagem - 9.4/10
    9.4/10
  • Direção - 8.5/10
    8.5/10
  • Visual - 9.7/10
    9.7/10
  • Trilha Sonora - 8.0/10
    8.0/10
8.7/10

Imagem: Republika POP

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Apaixonado por Star Wars e Senhor dos Anéis e profundo apreciador da sétima arte.

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